sábado, 22 de janeiro de 2011

Meu primeiro salto...

Sempre tive medo de aviões, muito...
Era tanto que eu não via a hora de entrar num deles só pra me atirar pra fora e sair voando,rs
Nossa!
Seria o máximo!
Alta velocidade em queda livre e depois "passear devagarinho" ao sabor do vento num traçado hiperbólico numa velocidade constante e...
"Abajo"!!!
Sonhava e sonho ainda muitas noites que estou voando por esses espaços sem fim, estratosfera e espaço cósmico são figurinhas carimbadas em meus aéreos destinos...
Considerando que se atirar pra fora de um avião seja uma coisinha à toa, de nada mesmo, problema maior está no derradeiro momento da chegada.
Existem algumas implicações matemáticas relativas à velocidade dos ventos, se há vento ou se estamos às portas de um tufão, nada de mais...
Um belo dia andando às belíssimas areias (???) de Praia Grande com o Rosseto - um amigo maluco, como todos os meus amigos de então e pela eternidade - não consigo me relacionar com pessoas "normais", não sei porque...
Enfim, ele, um militar que servia no Forte de Itaipu, padrinho de batismo de meu sobrinho, mandou:
- Titia (adoro meu sobrinho, graças a ele consegui esse doce apelido), quer saltar?
- Saltar? Ah, hoje não estou a fim de mergulhar lá na pedra...
- Ahhhhh titia, você não entendeu nada... Saltar de para-quedas!
- Como?
- O Paracelso (um soldado da guarnição) falou que tem uma academia em Santos e...
- "Demorô"
Lá fomos todos iniciar essa aventura, levamos mais uns dez com a gente - a mana também foi fisgada (depois conto o mico, rs)...
Depois de um mês e meio de um treinamento puxado - o monitor serviu no esquadrão de salvamento Terra-Mar no Rio de Janeiro e parecia um sargentão carniceiro nas aulas práticas, mas, tudo pelo sonho!!!!!
Fui uma aluna exemplar!
Tirei 97 na prova teórica (a maior nota de todos os tempos) e meu monitor me pediu autorização para enviá-la à Federação Brasileira para garantir melhor pontuação no ranking nacional e também me pediu para colocar minhas descrições dos procedimentos nas apostilas do curso. Inchei!!!! rsrs
Na prova prática eu esqueci uma coisinha básica que era flexionar as pernas antes de tocar o solo para fazer a rolagem (uma delícia - nunca mais me machuquei num tombo e olha que caí muito) - isso me tirou alguns pontos e fui assim a terceira da turma...
Mas... Como tudo tem um mas...
Viajamos para Americana - SP para a área de salto.
Lá foi a primeira turma para o avião - como tem gente ansiosa, fiquei para depois...
Uma gracinha, era um pontinho depois do outro se atirando daquela aeronave magnífica - um Cesna - não lembro o modelo, mas para saltar, a porta abre para cima, banco, só o do piloto; seis marmanjos com o piloto mais espremidos que sardinha em lata, uma mochila de dezesseis quilos nas costas (para-quedas principal - parabólico - modelo militar T-10 - já refugado pela aeronáutica - uma beleza de funcionamento), mais uma de três amarrada na barriga (para-quedas reserva), um luxo!!!
Primeira turma despejada, chegou a minha vez!
Lá vem o carniceiro chamando os cinco que iam saltar, fez uma rodinha e começou a perguntar:
- Qual é o procedimento utilizado quando temos um "forte" vento de cauda?
Esclarecendo que vento de cauda é exatamente o que está dizendo:
Um quase tufão bem no seu traseiro!
O negócio é não pensar muito e rezar pro seu santo predileto, pedir ajuda aos unversitários do além e confiar na "sorte"!
Mas, tudo pelo sonho!
Não vou amarelar depois de viajar a noite toda sentada naquele banco quebrado daquele ônibus fuleiro, ainda mais que toda a brincadeira custou o ôlho da cara!
Tudo bem...
Uma "debutante" como eu mandou:
Quando chegar ao solo, desequipar o para-quedas reserva (traduzindo: se livra da porcaria), e se preparar para o arrasto "agindo nos batoques" para desinflar o para-quedas e aguardar a equipe de terra.
Não aguentei e continuei:
-Isso e daí chama a ambulância pra levar uma mulher com a mão em carne viva para fazer enxerto no hospital!
- O Djalma (monitor) não aguentou e riu também, mas perguntou:
No que foi que ela errou? rsrs
- Daí a nerd aqui esmerilhou:
- Aterrar, fazer a rolagem, levantar, correr em volta do velame para a boca ficar contra o vento e recolher o mais rápido possível e se não conseguir fazer isso, se preparar para o arrasto: desequipar o para-quedas reserva, virar de costas para o chão e agir nos batoques para desinflar o velame, puxar para si e recolher o mesmo o mais rápido possível.
- Parabéns!
Guardaram bem a sequência?
Subimos, saltamos e chegamos ao solo, caí num terreno recentemente arado ao lado da pista de pouso, a terra estava fofa, nunca foi tão fácil, mas... Como tudo tem um mas...
Aterrei, fiz a rolagem e...
Ao começar a levantar dei de cara com uma cerca de arame farpado!
Eu de cá e o velame de lá!
Os tirantes do para-quedas quedavam tranquilos e soltos por cima da cerca...
Pensei:
- Como??? Vai dar não!!!!
Coragem Dulceny, agora é tudo com o plano B!
- Sentada eu estava, naqueles segundos plenos de eternidade.
Deitei de costas, desequipei o reserva, joguei longe aquela porcaria, porque naquele momento não passava de uma enorme porcaria, se por acidente acionasse a alça e ele também inflasse aí sim, ia ser uma maravilha!!!
Alcancei os batoques com as mãos, segurei firme e me senti deslizando feito um pacote quadrado naquela argila fofa e comendo terra até pelos olhos, mas o para-quedas não desinflou e eu só parei depois de me enfiar entre duas fileiras de arame farpado, minhas duas mãos sentiram algo rasgando as coitadinhas, sniff...
Trago ainda as marcas na palma da mão esquerda e no dedo anelar da mão direita, "maledeto" velame que não desinflava!!!
Olhei para elas consternada - um vermelhão daqueles bem vivos só.
Detalhe: O sangue saía aos jatos - ainda por cima cortou umas pequenas artérias - desgraça pouca é bobagem...
Apertei as mãos o mais que pude me segurando ali com o vento comendo solto - cortar, só as mãos, já pensou deslizar mais um pouquinho, onde eu ia parar?
Nem quero imaginar o que mas seria "extirpado" do meu frágil corpinho de quarenta e oito quilos de então...
Olhei bem para a cerca, olhei bem onde estavam minhas pernas - entre uma ferpa e outra, decidi então:
Daqui não saio, daqui nenhum ventinho metido me tira!
Apertei as pernas no arame e desse no que desse.
E o procedimento? Lá na apostila dizia: Agir nos batoques, mas nada acontecia - o velame estava mais que inflado, agora mais ainda sem as fendas que dão passagem ao ar...
O pior de tudo é que não chegava ninguém. O Rosseto que me convenceu a entrar nessa (concordo que ele não teve muito esforço para isso, rsrs) ficou de ser o responsável por mim na equipe de terra, cadê??????
Depois de um tempo interminável ouvi a Cely me chamar desesperadamente, mas eu só conseguia ficar dura, firme e forte, se falasse, descontrairia a musculatura e babau, uma cerca cheia de ferpas - hoje penso: Ai, sua anta, você já havia passado pela cerca, o resto da perna era fichinha - mas quem é que pensa nessa hora?
Ela gritava:
- Nem (outro apelido - nenem - eu odeio), fala comigo, você está bem?
Eu respondia (pensando, é claro):
Nããããããoooooooo!!! E alguém na minha situação podia estar bem?
Como ela não ouvia nada começou a chorar e berrar:
A minha irmã morreu!!!!
Ela não fala nada, ela morreu, ela morreu, ela morreu!!!
Ai que vontade de colocar uma rolha naquela boca, rsrs
Comecei a rir, ainda em pensamento; dava não pra executar essa tarefa naquele momento...
Enfim, chegou um outro rapaz - não me lembro o nome, aliás, lugar comum para a minha memória extremamente seletiva, apaga tudo, daí, quando preciso, não acho mais o arquivo...
Ele tratou de desinflar o dito enquanto os outros corriam para ver a "bezerra morta", kkk
Acredita que ela ainda ficou brava porque eu não respondi?
Acredita que eu ainda tive que enrolar o para-quedas em meu braço? Ficou todo sujo de sangue, mas essa era a minha vingança...
O fotógrafo que acompanhava a "expedição" veio voando fotografar a vítima da tragédia!
É... Também já tive meu dia de Paparazzi.
Sabe que fiz?
Primeiro: "Detonei" o Rosseto que, responsável por mim, foi salvar o Paracelso que aterrou ao lado da cerca de alambrado - percebeu? ALAMBRADO!!!
Oi, eu me "enfiei" numa cerca de ARAME FARPADO!!!
Ah, mas o Paracelso estava antes... Sem desculpas - eu me cortei por sua causa, você tinha que estar lá pra me receber no colo se preciso, rsrs
Agora, preferiu salvar o loirão de olhos azuis e lindo aí???
Ele aguentou uns bons meses o reflexo dessa atitude altamente suspeita, mas depois ele se casou direitinho, rs
Quanto ao meu carrasco monitor, esbravejei o quanto pude.
Onde já se viu descrever tão incorretamente o procedimento?
Falei pra ele que teria que alterar o texto na apostila para não acidentar mais ninguém naquela situação:
Onde se lê:
Agir nos batoques, esqueça!
O certo é:
Escolha UM batoque e puxe com toda força o tirante dele, assim o velame desinfla e fica próximo ao seu corpinho, daí você recolhe o dito, se levanta e não sofre arrasto, não se enfia na cerca de arame farpado, não corta suas frágeis mãozinhas e nem paga mico de passar por morta - morta de raiva - isso sim!
Ah, quanto à colega que descreveu o procedimento um tanto mais rudimentar que o meu, teve a sorte de não cair na cerca de arame farpado, mas qual, de nada adiantou a minha correção, ela se arrastou tentando brecar com as mãos, conclusão:
Hospital, enxerto, curativo, papinha na boca um tempão, alguém pra dar banho, vestir a roupa, uma maravilha!!!
Condicionamento mal feito dá nisso!
Dois excelentes exemplos não acha?

5 comentários:

Zilda Santiago disse...

Passando para te ler!!!Comentei esta sua aventura lá no face!!!Bjssssssssssssss

Leandro Ruiz disse...

Adorei a leitura... Um abraço!!!

Zilda Santiago disse...

Gosto muito de fazer esta citação em Centros que vou fazer palestra,e principalmente no que trabalho e sempre se faz necessário!!!Muito bom.Passando para convidá-la para ir ao meu blog buscar um presentinho que tem lá pra você com muito carinho.Bjsssss

JAIRCLOPES disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
JAIRCLOPES disse...

Dulceny,
Que crônica maravilhosa! Sinceramente, eu nunca li na bloguesfera um texto tão autêntico e com tanto humor natural assim. Você é uma escritora nata, além de ser paraquedista meio desastrada é claro. Parabéns, JAIR