sábado, 26 de setembro de 2009

1976





Nossa!
Eu já havia me esquecido do Reveillon de 1976!
Outro dia ao voltar do trabalho, conversando com um colega de trabalho no ônibus, sim, porque considero o circular bem mais sociável do que o carro. Para mim então, que falo pelos cotovelos, na saída do trabalho, não é que ainda não me sinto satisfeita?
Tem aí um outro motivo que bem podia ficar no segredo, mas... Ah! Eu vou falar:
Quando eu morei em Praia grande; só usava a bicicleta para me locomover, como, aliás, faz quase toda a população da cidade.
Mas, como eu dizia, ia sempre eu na bicicletinha vermelha, uma Ceci adaptada com três marchas.
A condutora alucinada, "garrava" logo a terceira marcha na contra mão e ia feito uma maluca.
Conclusão: Três acidentes, dois envolvendo inocentes pedestres com razão, afinal, quem é que vai atravessar a rua e olhar na contra mão para prevenir-se da doida aqui? E por fim o último envolvendo duas bicicletas, a minha e a de um maluco pior do que eu que saiu pela contra mão da frente de um caminhão estacionado e veio com tudo pra cima de mim, que por acaso naquela ocasião, andava pela mão certa da rua. Bem, sobrevivi a todos eles, mas me convenci da alta periculosidade da minha experiência como condutora de "um" duas rodas "pedalal". Quanto mais evoluir para um motorizado e pior ainda para um quatro rodas. Desisti.
Enfim, me conformei do meu destino certo de sempre andar de Mercedes com chofer particular...
Voltando ao foco.
Falava eu de caminhadas, gostar ou não gostar e vai daí que me lembrei da maior caminhada que já fiz e me lembro muito bem da data, ai, ai...
Trinta e um de Dezembro de mil novecentos e setenta e seis...
Trabalhei em Santos no antigo Supermercado Eldorado, na Avenida Conselheiro Nébias, hoje Carrefour. Eu fazia degustação do Panetone Visconti.
Instalei-me temporariamente em casa de minha tia Cida no Marapé. Bem, numa dessas a família foi passar um fim de semana lá e saímos, minha prima Maria, minha irmã e eu. Fomos à Domingueira na boate do Santos Futebol Clube que era bem perto da casa da Maria, na Vila Belmiro, o que divide os dois bairros é o Canal Um. Tudo bem, chegamos, pagamos, entramos; fomos dançar e conversar com os colegas.
De repente apareceu o ex-cunhado da Maria, o Francisco... Alto, cabelos castanhos, como se diz hoje: Tudo de bom!
A mana que desde lá não é boba, nem nada, já foi bater um papo com ele, levou-o para o outro lado e lá ficou a noite toda. Música vai, música vem, terminou a domingueira e fomos para casa. A Maria, eu, a Cely e o Francisco. Minha irmã o convidou para passar a entrada de ano aqui em Campinas, blá blá e blá blá...
Dia seguinte ela me deixou uma incumbência: Convencer o jovem a viajar comigo no dia trinta e um para comemorar o Reveillon no Clube com ela, é claro!
Bem, eu cumpri direitinho a "ordem". Ele foi com um primo dele durante a semana lá na casa da Maria; jogamos carta, conversa fora e eu lá, enchendo a paciência dele tentando convencê-lo a viajar.
Era ele abrir a boca e eu: Viaja! Viaja! Viaja! Não me lembro de nenhuma outra ocasião que eu tenha sido mais chata, rs
Até que enfim ele disse: Se é para o bem de todas e para o sossego dos meus ouvidos, diga à sua irmã que EU VOU!!!
Beleza!
Dia trinta e um à tarde ele me encontrou no Eldorado. Eu estava fazendo meu último plantão. Enfim, trabalho terminado e lá fomos buscar minhas malas nos dirigimos à Rodoviária de Santos. naquela época (ai, que coisa antiga) não tinha ônibus direto. Tínhamos que fazer baldeação em São Paulo, na antiga Rodoviária. Tudo certo? Nada!
A Rodoviária em São Paulo não tinha um palmo de chão para se pisar. Tudo lotado e tivemos que esperar um século o ônibus para Campinas.
Bem, descemos a escada e ficamos lá no meio de um oceano de gente e de repente ele me perguntou se eu tinha o cartão do irmão dele...
Hummmm... Esqueci de contar que eu estava em contatos imediatos com o irmão dele que me deu o telefone para eu ligar quando retornasse a Santos - eu ia pagar as outras demonstradoras na semana seguinte.
A abestada aqui respondeu:
-Tenho sim.
-Quero ver se é verdade, me mostra.
-"Tá" aqui, "oh"!
-Ziiiiipt!...
Aieeeeee!!!!! Me devolve já o cartão!!!
-Não dá mais, viu o gari que passou? Então, joguei na lixeira que ele carregava!
Fiquei com tanto ódio daquela criatura que não falei mais com ele a viagem inteira!
Chegamos em Campinas e fomos pra minha casa no Jardim Eulina. Já eram onze e meia. À porta da minha casa; silêncio. Tudo fechado, escuro. Não havia ninguém.
-Ai, não acredito!
Sabiam que vínhamos e não esperaram! Foram para o clube e largaram "a gente" para trás. Passados alguns instantes neuróticos de esbravejamentos inúteis e então jogamos as malas no quintal de casa e eu disse a ele:
-Vamos à casa do meu padrinho que é aqui perto. Lá telefonamos para o clube, pedindo que venham nos buscar (que falta fazia ainda não existir um celular)...
Quando subíamos a rua eu vi uma festa doida na casa de um colega do bairro e falei para o Francisco:
-Uau! O povo ali "tá que tá" animado!
Na casa do padrinho:
-Toc, toc, toc, toooooooooc!!!!
Atenderam. Pedi desculpas pelo adiantado da hora (mais de onze e meia) e telefonei para o clube.
-Ah! O Irany (meu pai) não veio ao clube ainda!
-Como assim? Não tem ninguém em casa!
-Papagaio! Onde foram? Com quem? Como? Por quê?
-Que gente abusada! Ninguém de casa lembra que eu existo, não gostam de mim, ai, ai...
E o Francisco só com cara de "que cilada eu entrei"...
-Valeu padrinho - obrigada - Feliz Ano Novo!!!
-Tchau, tchau...
Bem, última forma:
-Vamos para a casa da minha avó lá no Jardim Garcia, devem ter ido para lá. Não me lembro bem, mas acho que naquela época ela ainda não tinha telefone - como era dura a vida naqueles tempos (nossa, mas que coisa antiga mesmo)!
-Vamos até o viaduto e pegamos o último ônibus até lá.
-Último ônibus? Em Santos tem ônibus a noite inteira...
-Não entendi!
Fomos feito dois foguetes e quando chegamos ao pontilhão da Via Expressa o ônibus passou. O ponto ficava no final do pontilhão e nós estávamos no meio.
Pulei, gesticulei, pedi pelo amor de Deus para o motorista parar e ele nos olhou com uma cara de safado, riu e passou reto!
-Aaiiiiiiii!!!!!!!
Xinguei-o de tudo quanto me lembrei que pudesse existir de palavrão - coisa que eu não costumava fazer, mas naquele momento dei meu grito de independência!
-#%\\*&#+¨¨$//?#%{@}][\/#!!!
O Francisco ria feito louco da minha desgraça (só que a minha também era dele. dããã), eu queria me jogar da ponte!
Passada um pouco a raiva, eu disse:
-Vamos ter que ir à pé, não tem jeito! Aqui no meio da rua é que não dá para ficar.
Ele perguntou:
-É longe?
Aí eu dei uma de mineira e respondi:
-Não, é logo ali!
Ele tinha que ir comigo, afinal, sozinha naquela "selva" é que eu não ia ficar.
Nisso começaram a estourar os rojões da zero hora!!!
Ele me olhou e disse:
-Isso que é o Reveillon de vocês?
-Lá em Santos eles estouram na ilha toda e sem parar por uma hora!
Nada podia ser pior. Sem casa, no meio da rua, abandonada e ainda por cima um chato falando mal do Reveillon da minha cidade e com uns quilômetros de chão ainda por andar; pensei em matá-lo, mas isso ficou para mais tarde, depois de estar em segurança na casa da minha avó; eu pensaria como...
Andamos pela avenida toda do Jardim Aurélia, dobramos à esquerda até a estrada John Boyd Dunlop a caminho do Jardim Garcia (ainda bem que era descida, só alegria, rs). A cada quinhentos metros ele me perguntava se faltava muito.
-Não... Estamos quase chegando, rsrs
Bem, não bastasse tudo isso e passavam carros e mais carros buzinando e fazendo todo tipo de piada infame aos dois loucos a pé na noite.
Chegamos ao Jardim Garcia. Acabou? Que nada. Vira à direita e segue pela Transamazônica até a última rua antes da praça, vira de novo à esquerda, sobe três ruas, dobra à direita e pronto (a subida final não acabava nunca). Vai entrando aí na terceira casa. Toca essa meleca de campainha que eu quero um litro d'água!
Minha avó levantou assustada e quando contei tudo, tudinho; ela me fala com a maior calma do mundo:
-Ué, mas eles estavam lá perto na festa (festa doida, lembram?) do colega do Joel (meu irmão), iam ficar lá até quase meia noite, esperando vocês e depois iriam para o clube, era pra vocês irem para lá!
Éhhhh???... ... ...!!! Nossa, que tudo! Só esqueceram de nos avisar... Um bilhete na porta... Valeu... Obrigada!
Não sei porque me lembrei agora do Samba do "Arnesto"...



5 comentários:

Luísa N. disse...

Lembranças, lembranças... são sempre boas, não é? Mesmo com toda a confusão que nossa ávida junventude nos fez passar!
Bjs!
Luísa

007BONDeblog disse...

DULCENY

Na juventude fazemos coisas horríveis (como andar de bicicleta na contra-mão)rs.., que perigo, mas,também coisas maravilhosas, por sermos mais expontâneos e idealistas/inconformados.

O tempo tempera.

Um grande abraço

neo-orkuteiro disse...

Adoniran Barbosa foi muito bem lembrado, neste seu texto de teor autobiográfico. Só foi.
Beijos

Luísa N. disse...

Voltando para um recado, amiga:
1- O multivias está debatendo sobare as bromélias. Gostaria muito de ter sua opinião.
Estamos lhe aguardando!

Angélica Tulhol disse...

Dulceny, passe lá no Anda Ambiente para você recolher seu selo de Blogs Especial!!!
Bjsss,
Angélica